VISITA GUIADA

 O PRIMEIRO DE JANEIRO

 Das Artes / Letras

29 de Novembro de 2000

 

 

                LIVRARIA MOREIRA DA COSTA

Actualmente nas mãos de um especialista em informática, não é de estranhar que a Livraria Moreira da Costa concilie eficazmente o passado com o futuro, fazendo uso das novas tecnologias para melhor organizar e divulgar as suas antiguidades. Uma existência de quase cem anos que faz da mais antiga casa alfarrabista do Porto, um património histórico e cultural assinalável. Venham mais cem.

 

Do pergaminho ao computador

SOFIA MENESES (texto)

PEDRO BARBOSA (fotos)

    Ângelo César Carneiro e Angelo Miguel Gonçalves Carneiro, pai e filho, são os actuais gerentes da Livraria Moreira da Costa, sita no n.º 30 da Rua de Avis. Uma casa com perto de um século de existência, por onde passaram ilustres camilianistas, que quer honrar o seu passado, investindo cada vez mais no futuro. Pois, como diz Ângelo Carneiro, "Temos que nos preparar para os novos tempos".

     Programador de sistemas informáticos, algumas décadas atrás, numa época em que o computador pertencia, ainda, ao mundo da ficção cientifica. deixou a sua actividade profissional para se dedicar de corpo e alma aos livros antigos e usados. Porém, Ângelo Carneiro não pôs de lado os seus conhecimentos na área das novas tecnologias, tendo logo começado por informatizar a livraria. "No início da década de 70, eu já tinha aqui um computador, daqueles hoje muito antigos, o que, permitiu uma organização invulgar para a época. O computador pessoal, na altura, era quase inexistente e desconhecido, a não ser nas grandes empresas

    Ângelo Carneiro está, agora, a criar uma página na Internet, tirando partido dos novos meios de publicidade e divulgação. "As exigências dos clientes são cada vez maiores e temos que nos renovar, no sentido de oferecer cada vez mais qualidade", afirma. 

    Renovar não significa, todavia, esquecer o passado. Pelo contrário. Numa casa tão cheia de pergaminhos (em todos os sentidos do termo), Ângelo Carneiro esforça-se por preservar a herança de outros tempos. Uma herança que remonta a 1902, ano da fundação da livraria.

    José Moreira da Costa (bisavô da mulher de Ângelo Carneiro), antigo caixeiro de importantes livreiros como Ernesto Chardron e Lungan & Genelioux, foi o seu fundador, que tomou de trespasse o já antigo alfarrabista «Casa Lopes», existente na Rua da Fábrica.

    Com a construção do Hotel Infante Sagres, a chamada "Casa da Fábrica" é demolida e aberta a Rua de Aviz, para onde se muda a livraria.

    Moreira da Costa editou livros, publicou catálogos e promoveu leilões. "É a livraria alfarrabista mais antiga do Porto. Quando é criada a revista "O Tripeiro", o 1º anúncio comercial que lá aparece é da livraria Moreira da Costa", adianta Ângelo Carneiro. Após a morte do fundador, em 1927, a sua filha, Elisa Duarte da Costa Ferreira Dias, toma conta da livraria que passa a denominar-se "Moreira da Costa (Filha)", como ainda hoje consta nos letreiros da casa.

    "D. Elisa", como é conhecida, esteve até 1965, ano da sua morte, à frente da livraria, e continua a ser lembrada por muitos dos seus antigos cliente e amigos. "Era muito considerada e, no seu tempo, a livraria passou a ser um espaço de tertúlia de pessoas muito conhecedoras de livros, sobretudo, camilianistas. Camilo, nessa altura, era o amor de perdição de muito boa gente", lembra Ângelo Carneiro.

"INFANTA" ILEGAL

Esse interesse por Camilo viria a originar um acontecimento polémico para a época, que colocou a livraria no centro das atenções da sociedade letrada do burgo portuense. O episódio ocorre em 1952, quando D. Elisa, indo ao encontro dos interesses dos seus clientes, fez uma edição fac-similada da raríssima obra «A Infanta Capelista» de Camilo Castelo Branco. Um livro que, já depois de impresso, o escritor não quis divulgar, porque, desejoso de obter o título de "Visconde de Correia Botelho", que lhe fora prometido, achou por bem não tornar públicas as suas criticas a certas figuras da realeza, insertas nessa obra. Todavia, vieram a público alguns exemplares, os quais se tornaram alvo de cobiça de todos os bibliófilos camilianistas. D. Elisa fez, então, uma edição fac-similada, com uma tiragem de 50 exemplares, destinada a um reduzido círculo de clientes. O caso chegou ao conhecimento dos descendentes do autor do livro, que intentaram uma acção judiciária contra a proprietária da livraria, tornando a edição ilegal. D. Elisa foi obrigada a retirá-la do mercado. Passados 50 anos, essa edição tornou-se ainda mais valiosa para os camilianistas e os poucos exemplares que existem chegam a custar 100 mil escudos, no mercado. A Livraria Moreira da Costa recusa a sua venda. "É uma das nossas preciosidades, faz parte do nosso património. Além do valor coma peça rara, tem para nós um signitïcado muito especial, pois prende-se com a própria história da livraria", explica o actual proprietário.

    Falecida Elisa Duarte no ano de 1965, coube a sua filha Maria Elisa Ferreira Dias Gonçalves dar continuidade à casa. E foi durante a sua gerência que Ângelo Carneiro começou a frequentar a livraria por amor aos livros e, também, à filha de Elisa Gonçalves, com quem namorava e viria a casar.

    A "Moreira da Costa" era ainda, nessa época, um ponto de encontro de homens de cultura.

    "Havia na sala de entrada dois bancos compridos, um de cada lado da livraria, onde estavam sempre pessoas a falar sobre livros e assuntos diversos. Neles, sentava-se frequentemente o professor Vitorino Nemésio que passava muitas vezes por cá e com quem tive o gosto de conversar Vinham por aqui pessoas de grande mérito que muito nos ajudaram com os seus conhecimentos".

     Ângelo Carneiro recorda com humor, o entusiasmo de sua sogra, perante tão cativantes reuniões: "Por vezes, estava tão envolvida

 na troca de ideias, que entrava um cliente a pedir determinado livro e ela, em vez de o ir buscar, respondia-lhe rapidamente que não o tinha, só para não interromper a conversa...". 

     Em 1987, foi fundada uma sociedade, da qual faziam parte, além de Maria Elisa Gonçalves, a filha desta, Isabel de Fátima Ferreira Dias Gonçalves Carneiro, o genro Ângelo Carneiro e o outro filho de Maria Elisa, Rui Manuel Gonçalves. Em 1999, alguns anos após a morte de Mania Elisa, Ângelo Miguel Gonçalves Carneiro (filho de Isabel e de Ângelo, e trineto do fundador da livraria) compra a quota de Rui Gonçalves, tornando-se assim comproprietário.

    Um processo natural, dado que Miguel foi praticamente criado ali na livraria, entretendo-se, em criança, a agrupar os livros pelas lombadas e distintivos das editoras.

DOR DE ALMA

    Hoje, acabou o tempo das animadas conversas no espaço da livraria. Os antigos bancos, agora sem utilidade, passaram a pertencer às memórias do passado.

    À semelhança de outros alfarrabistas da cidade, Ângelo e Miguel Carneiro recorrem aos catálogos como forma privilegiada de entrar em contacto com o público. "0 cliente não vem às livrarias e o catálogo é a melhor forma de os aproximar Distribuímos catálogos mais ou menos de dois em dois meses, com 400 títulos cada, e ao fim de uma semana, já não temos livro nenhum para vender Fazemos a distribuição do catálogo e, durante uma semana, vendemos tudo, porque apresentamos peças únicas com muita procura".

    É no belo varandim circular da livraria que Ângelo Carneiro guarda algumas das obras por que tem mais estima. "Tenho um  «Orpheu» do Fernando Pessoa, que não mostro a ninguém. É uma peça raríssima, belíssima, e dá-me um enorme prazer olhá-la e pegar-lhe".

    Camilo Castelo Branco continua a ser uma presença marcante, tendo direito a uma enorme estante só para si, com primeiras edições de obras da sua autoria e outras publicações sobre o escritor. Centenas de títulos.

    Apesar da grande procura de algumas obras, a livraria não se desfaz de todas as suas relíquias. "Gostamos mais de comprar do que de vender. Se quer ver um alfarrabista satisfeito, mostre-lhe livros para e/e comprar. Mas vender, por vezes, é uma dor de alma. Às vezes até evito falar em certas obras, para que não me surjam propostas irresistíveis".

    Ângelo Carneiro pega nos primeiros livros que lhe vêm à mão. "Tenho aqui uma edição dos Estatutos da Universidade de Coimbra, de 1623. É uma das raridades que possuo. E aqui, "Elementos de Farmácia, Química e Botânica para uso de principiantes, dedicados ao muito alto e soberano príncipe regente D. João Nosso Senhor", de António José de Sousa Pinto, obra de 1800".

    

É um nunca acabar de títulos. Em cada sala, as paredes estão cobertas até ao tecto, de estantes com livros, e por toda a parte se vêem volumes empilhados ou ainda depositados em caixotes. Isto, apesar das actuais dificuldades em adquirir livros antigos. "Não é fácil, temos que frequentar leilões onde aparecem as peças mais seleccionadas, ou então, comprar a privados. Como as casas são pequenas, as famílias são, por vezes, obrigadas a desfazer-se de livros que possuem. E também aparecem pessoas com dificuldades económicas que recorrem á venda de livros".

    No inicio dos anos 90, a Livraria Moreira da Costa tentou enveredar, também, pela venda de novidades editoriais, até porque se situa numa zona da cidade onde passam muitos estudantes e seria uma forma de conquistar novos públicos. Porém, a tentativa não obteve os resultados esperados, conforme nos explicou Ângelo Carneiro: "Começaram a abrir os grande espaços comerciais e não havia hipóteses de competir. Chegou-se a um ponto em que eram os grandes espaços que ditavam aos editores as regras de edição. Hoje, os editores estão a mudar de política, há uma série de coisas que entretanto se alteraram, como a lei do preço fixo, mas resolvi pôr de parte o livro novo".

    Ao fazê-lo, pós também "de parte", involuntariamente, o cliente novo. "Raramente aparecem pessoas com menos de 30 anos. O cliente do alfarrabista não é o habitual das outras livrarias; ele anda à descoberta de qualquer coisa, a tentar encontrar algo que passa completamente despercebido ao leitor normal".

PRECONCEITO

    Na opinião de Ângelo Carneiro, existe mesmo um certo preconceito por parte das camadas mais jovens da população, em relação ao livro antigo. Preconceito que acaba por ser ultrapassado com o tempo, mas que, nalguns casos, permanece pela vida fora, como exemplifica Ângelo Carneiro, numa das histórias que nos contou: "Certa vez, numa feira do livro, uma senhora pegou numa obra de 1945 e disse-nos que o exemplar parecia ser muito antigo. Eu expliquei-lhe que era um livro usado e a senhora imediatamente largou o livro, como se ele  lhe pudesse transmitir alguma doença...".

    Outras histórias se seguiram, extraídas do rol de memórias e experiências acumuladas no aliciante reino dos livros.

    Antes de sairmos da livraria, reparamos numa ilustração antiga, onde se vê um desenho representando a casa Moreira da Costa e, em primeiro plano, um cliente contentíssimo carregado de livros, acompanhado por um cão com um livro na boca.

    Qual o melhor amigo do homem? Para o alfarrabista, é, certamente, o livro.